Doces memórias sombrias
setembro 27th, 2010 § Deixe um comentário
O céu mostrava-se acinzentado, e parecia transparecer tristeza e conflitos, como se espelhassem mentes humanas. As nuvens moviam-se vagarosamente, pareciam mais lentas que o normal. Aquele clima sombrio era estranho até para o fim de tarde de janeiro que era. Mas tornava-se costumeiro pelo desenrolar da sociedade. Duas garotas apareceram caminhando vagarosamente sobre o campo sob aquele céu. Elas estavam juntas, mas andando distantes e indiferentes.
Observando com mais cautela os dois rostos lindos, envolvidos com um brilho estonteante apesar do refletir do céu acinzentado, eles mostravam ressentimento, que não conseguia ser contido inconscientemente enquanto as meninas que andavam paralelamente saiam do caminho marcado e iam direção a outra por algumas vezes consecutivas até tomarem rumos distintos, a de cabelo mais longo e escuro como o sentimento que guardava andou em direção à pedra mais próxima.
As garotas mantinham-se inconscientemente conectadas, por algo que nem supunham existir. A outro garota de cabelo curto e loiro, caminhou um passo até emparelhar-se com a árvore mais próxima e sentou-se nela se encostando. Manteve-se distraída por instantes, concentrada em seu íntimo, que trazia suas mazelas tristes, quase depressivas. Mas logo em seguida enxergou a outra garota, e focando-se plenamente nela, pela primeira vez, percebeu o quanto era bonita, enxergou nela uma beleza exótica, que não se retinha ao físico, é como se pudesse ver além disso, como se enxergasse parcialmente uma boa áurea a envolvendo. Olhando a garota percebeu que apesar de sua expressão sombria – como o ar gélido que emanava pelo campo todo – ela possuía uma ternura incrustada em si.
Então do outro lado do campo, este por sua vez ocupado por flores de lótus arroxeadas, encontrava-se a moça de cabelos imaculados e negros que contrastava com sua roupa clara e informal, tão descontraída quanto seus pensamentos, Clara ao olhar através da clareira observou que a moça enigmática a olhava, ela fixou atentamente retribuindo o olhar de curiosidade e num suspiro subiu o rosto para admirar belas águias que ali passavam, mas Clara não estava de fato ali, ela viajava, viajava para um passado muito distante, de qual a moça que observava atenta e curiosa, não se lembrava.
A outra garota era menor, e também mais frágil. Ela continuava a observar a outra e toda a paisagem que a envolvia, observando que a visão parecia uma pintura, onde esta garota havia sido projetada para estar ali. Victória, não conseguia tirar os olhos da instigante figura. Mas esta, pareceu ter-lhe indiferença quando simplesmente olhou para ela e logo desviou o olhar para o céu, Victória sentiu isso como uma punhalada. Entristeceu-lhe a aparente indiferença que a garota tão interessante lhe empregava. Abaixou a cabeça e passou a observar os tímidos movimentos que as folhas faziam no chão conforme o vento as tocava, suave. Passou a imaginar por que a garota não interessou-se por ela como ela interessara-se pela garota, já que elas eram os únicos seres daquele misterioso lugar.
Clara imersa em seus pensamentos do passado não pode notar que Victória se ofendera ao desviar o olhar, ela observara o céu que havia mudado de tonalidade, passou do acinzentado sombrio para uma tonalidade mais clara, por fim as nuvens negras haviam sumido e o céu foi tomado por um azul límpido, o mesmo céu que ela avistará há alguns meses atrás, Clara voou dali, foi direto para exatamente 03 de junho do ano passado, nesse dia havia ocorrido um dos fatos que mudara o destino dela, não somente dela ,era notável que envolvia Victória, que envolvia também o fato do sentimento e do desconhecido da jovem Loira que entristecida preferia olhar a bela paisagem que se formava.
Victória estava aturdida, levantou a cabeça lentamente, contorcendo o corpo de um modo estranho. Direcionou o olhar para a outra garota novamente, observou-a, agora com uma abordagem diferente, tentou imaginar o que ela pensava, não teve idéias, mas isso lhe serviu para perceber que a garota estava realmente emersa em pensamentos, concentrada em algo. Neste momento ela percebeu algo que lhe fez sorrir, a garota não havia lhe desprezado, ela apenas estava alienada. Sua curiosidade e ansiedade eram grandes, ela não suportou. Levantou-se, tão suave e lentamente que não produziu sonoridade alguma, começou a caminhar em direção a Clara, suave como se flutuasse. Parou em frente a ela, observou-a ternamente, quanto mais olhava, menos real parecia, mas ao mesmo tempo, provocava-lhe sensação de deja vu, ela necessitava tocá-la para ver se era real. Esticou a mão devagar, até pará-la ao lado do rosto da garota, pousou sua mão no ar a poucos milímetros daquela pele clara e reluzente, como se tivesse medo de tocar.
Clara estava em um estágio menor de concentração, onde as imagens sobre o lugar e as cores se desbotavam e vinham em sua cabeça algumas vozes, vozes doces, porém vozes que traziam pedidos de ajuda, pedidos desesperados; então mesmo que o céu agora brilhasse e Clara pudesse sorrir com um dia tão belo, seus olhos foram dominados por algumas lágrimas que mesmo pesadas não ousaram a cair e mantiveram-se fixas nos olhos dando brilho refletindo seus pensamentos, e nesse momento ela observou mais atentamente o agora e não o passado, e percebeu que havia algo próximo, as lágrimas em seus olhos embaçava a imagem, mas ao virar assustada com a presença de alguém, suas lágrimas escorreram e Clara Pode ver com clareza que era Victória que estava ali, com a mão perto de seu rosto, com um olhar de curiosidade e com certo receio de tocar-lhe a face.
Tudo aconteceu muito rápido, Victória estava ainda pensando em tocá-la quando viu lágrimas surgirem em seus olhos e ela mexer-se, deixando as lágrimas cair. Comoveu-se e instintivamente passou o dedo pela face de Clara secando-lhe uma lágrima. Assustou-se ao perceber o que fez, percebeu o ato de impulsividade. Sentiu um turbilhão de emoções e pensamentos lhe invadirem. Sentiu medo de que a garota reagisse mal, a curiosidade por saber o que a fazia chorar, a vontade de ver um sorriso naquele rosto angelical, o desejo ardente de entender tudo que acontecia etc. E surpreendentemente viu toda a situação mudar, percebeu pela primeira vez o fato mais importante que existia no momento. Olhando fixamente no olhar da garota viu como um filme, milhares de flashes. Flashes de uma cena aterrorizante. Sentiu vontade de gritar e rapidamente levou a mão tapando a boca para se impedir. Não estava suportando lembrar de todo aquele caos, as pessoas mortas, pedindo por socorro de um modo eufórico, que não se encaixava com as suaves vozes. Tudo esclarecera-se naquele momento, lembrara do sangue escorrendo as ruas infectadas e sujas. Mas de todas as lembranças, havia uma especial. Foi em qual se focou, tentando deixar as outras de lado. Focou-se na imagem de Clara, agora lembrara seu nome, estava tão bela quanto hoje. Lembrou de Clara agonizando em uma calçada velha e ensangüentada, precária como tudo era naquele lugar, lembrou do quanto estava machucada e da euforia de sua mãe gritando para que salvassem sua filha, gritando seu nome loucamente. Não queria lembrar do que vinha a seguir, mas foi obrigada, sentiu-se como se estivesse retornado a cena, como se a estivessem puxando de novo e ela fazendo força para correr até Clara, mas não conseguia. Queria muito ajudá-la, mas não deixaram para que ela pudesse se salvar, e ela se viu impotente e depois daquele dia tentou esquecer tudo o que ali havia acontecido. Agora via Clara tão bem, exalando saúde e serenidade, explodiu em felicidade por finalmente saber o rumo da história que tanto tentara esquecer. Começou a derrubar desesperadas lágrimas de alegria, sentiu um grande ímpeto de abraçar Clara.
Clara sentiu o dedo de Victória secar sua lagrima que ousara cair, ela sorriu visando que a outra não sentisse que estava invadindo um espaço qual não poderia entrar, ela podia, mais que qualquer outra pessoa no mundo, Clara observando-a percebeu a bela Victória levar a mão ao rosto tampando seus lábios rosados e assustados momentaneamente, logo Clara percebeu que ela se lembrara daquele terrível dia 3, o dia em que Victória perdera sua memória e que agora sempre tinha flashes mas voltava a deixar a existência de todas as pessoas inclusive a memória de que foram as melhores companheiras que já existira, o dia que Clara perdera um de seus braços ao lutar bravamente contra a ditadura, ao lutar contra a opressão, então finalmente ao saber que aquele momento seria único e que não poderia haver outro em muito tempo, Clara abraçou fortemente Victória com seu braço bom , sentiu como se nunca tivesse acontecido nada, como se a história acabasse ali, se resumisse a Victória e sorrisos, logo algumas lágrimas finalizaram o momento que de cima inundava qualquer pessoa conscientemente bondosa, aquele abraço, o abraço mais apertado e mais carinhoso que existira em toda e qualquer história real.
Estela Janine & Fernanda Tamada
Entranhas multicoloridas
setembro 27th, 2010 § Deixe um comentário
Viajado, alterado,
misturado, explorado.
Brasil já foi a Portugal.
Brasil já foi a África.
Brasil já foi a Europa e foi a América.
Diversidade, desigualdade.
Terra de negros, brancos e pardos.
Terra de todos. Terra de ninguém.
Raças e culturas conversam,
se abraçam, se desgastam.
E de que adianta tanto ter
e tão pouco respeitar?
Verde e amarelo se confundem na aquarela
somando todas as bandeiras.
Valiosa área desvalorizada.
Estela Janine
03 de setembro de 2010
Em seu leito
setembro 24th, 2010 § 3 Comentários
Senti um imenso ímpeto de escrever sobre aquele momento. Mas o que escrever? Eu queria relatar o que estava sentindo. Porém, pareceu-me impossível descrever tal perfeição.
Visto isso decidi expor aqui, mesmo que superficialmente, o quanto aquele instante me foi importante.
Naquela imensidão a céu aberto, só o que existia era eu e ele.
Era intenso, inacreditável, parecia um filme e não a realidade, mas nós estávamos ali, concretos. Ele me completava, e ele parecia querer-me ali, em seu leito.
Ele acariciava-me, querendo me abraçar. Seu toque era suave como uma pluma. Ele estava frio, mas tudo que eu sentia com seu roçar era um calor carnal e relaxante.
Eu respirava com ele, acompanhando seu vai e vem.
Aquilo me preenchia, nada que não envolvesse aquele momento importava para mim, ali com ele eu nada mais queria a não ser permanecer daquele modo para sempre, indo no embalo dele, seguindo cada movimento.
Estava tão intenso que fiquei eufórica, comecei a ofegar.
Eu desejava com a alma, com a carne, com a mente e coração, que não acabasse. Era excitante demais para simplesmente parar, demasiadamente prazeroso para acabar.
Eu deveria estar cansada, mas estava cega e não via a banalidade e repetição do ato, pois para mim ainda era a melhor coisa do mundo, a qual eu queria poder vivenciar todos os dias.
Eu tive que partir, mas ele ficou lá, como sempre esteve e estará, com todo esplendor que só ele tem, o mar.
Estela Janine
Peruíbe – 19/09/2010
A (des)humanidade
setembro 5th, 2010 § 2 Comentários
O céu está límpido, esbanjando um hipnotizante tom claro de azul.
Manchas pretas começam a surgir sobre o céu, e como consequência, gotas vermelhas inundaram a paisagem.
E como se tornou praxe, começaram a aparecer manchas violetas, aos poucos, e a quantidade foi aumentando e preenchendo muitos espaços, até os já ocupados por outras cores. E o violeta sendo uma cor tão intensa naquele céu, acarretou o aparecimento do cinza que chegou tampando quase tudo com sua maldade.
Um suspiro, um alívio, um sorriso, começava momentos brancos sobrepondo a desordem, mas essa cor vinha tímida, lenta, e com ela tentava mostrar novamente o estonteante azul daquele maravilhoso céu.
Estela Janine
Seja feliz!
setembro 4th, 2010 § Deixe um comentário
O homo sapiens é diferenciado dos demais seres vivos pela capacidade que tens de racionalizar. No entanto ele só será feliz quando aprender a pensar no que há de bom e não supervalorizar e buscar compreensão para todos seus problemas.
Estela Janine
Entre a neblina
setembro 4th, 2010 § Deixe um comentário
Era tão surreal o que enxergava a sua frente, que mal podia acreditar. A neblina matinal cobria tudo como um lençol branco que quisesse esconder aquela horrenda cena.
Pairava um vento gélido, que sussurrava agourento,tocava as árvores e as fazia chacoalhar furiosamente, um vento mortífero.
No chão pairava sombras fantasmagóricas, provenientes das imponentes árvores secas. Ao redor nada que se via, não parecia promissor, não havia saída aparente naquela pequena clareira isolada, e a imagem permanecia ali, intacta, irreversível.
O fato estava a cada instante mais nítido, e seu olhar era de choque, estava estarrecido com a perturbante cena. Imóvel, com a respiração adoentada – como se seu corpo engolisse aquela visão e respondesse com estafa –, o olhar permanecia fixo, totalmente direcionado e concentrado no absurdo. Sua mente brigava com seu corpo desesperadamente para sair dali, não estava mais suportando aquilo.
Havia algo muito forte que mantinha ali, e sem seu íntimo o garoto conhecia exatamente esse algo, apesar de querer dar absolutamente tudo que tinha para não saber de nada, isso era agora algo impossível, pois ele sabia perfeita e concretamente o que havia acontecido e o que o mantinha ali.
Tentou obrigar-se a sair dali rapidamente, mas não pôde, jamais poderia, jamais conseguiria, e assim foi, permaneceu observando a imagem por dezenas de horas, e depois daquele dia jamais seria o mesmo. Permaneceu naquela floresta o resto de sua vida, completamente louco, vivendo ano após ano somente por instinto.
E ninguém pôde tirá-lo de lá, nem mesmo sua família, porque sempre que lhe falavam sobre isso, o garoto tinha acessos desgovernados, gritava desesperadamente, relatando repetitivamente a terrível cena que o traumatizara, o enlouquecera. Dizia o garoto: ela estava lá, onde eu deveria estar, era para mim aquilo, não para ela! E ela estava tão linda aquele dia, tão doce, com a expressão feliz! Foi assim, assim mesmo, ela estava tão feliz e lhe fizeram a crueldade e o pior é que ela não tinha nada a ver com a história! Não tinha! Ela nem sabia, nem sabia! Ela nem sabia! Era eu! Eu que eles queriam assassinar e não ela! Era eu! Eu!
Estela Janine
Estela Janine