Entardecer

novembro 8th, 2010 § 2 Comentários

O ronco do motor marcava o fim do dia. E o sapato velho escorregava sobre o úmido asfalto, onde a chuva recém cessara. O lixo corria com os últimos resquícios de água pelo irregular declive da deserta rua.
Havia apenas uma pessoa caminhando por ali, talvez porque o toque de recolher recém tocara, cedo, como se fez costume desde aquele sombrio dia…
Passos lentos, determinados, talvez calculistas. O semblante se escondia sob a negra touca, parecia esconder-se além do frio, a respiração rápida, fatigada, parecia ansiar algo de doentio modo.
De repente, correu, e parou subitamente em frente ao velho portão de madeiras quebradas. Pôs a mão na fechadura, nervosamente, a delineou com os dedos. Num golpe rápido e tirou a chave do bolso, abriu o portão e sem o fechar correu quintal adentro.
Com a mesma agilidade de antes abriu a porta e subiu a escada, pulando dois degraus de uma só vez. Correu obstinadamente e escancarou a próxima porta. Deparou-se então com o que procurava ali. Avistou o espelho. Arrancou a touca e admirou o reflexo. Organizou o cabelo. Tomou nas mãos a gasta escova, e os dentes escovou.
Ouviu a mais doce música, o mais belo som, era a voz da pessoa amada, que lhe gritava o nome. Os músculos maxilares moveram-se instantânea e involuntariamente com o som captado, nascia um sorriso. E a voz saiu embargada, gritando:
– Suba meu amor!

Estela Janine

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