Visão

julho 12th, 2011 § Deixe um comentário

Sempre vejo as mesmas coisas nessa direção. Mas não hoje. Há só uma pequena coisa. Perdida nesta vastidão. Todo o resto sumiu inexplicavelmente.

O balão está lá, calmo e vacilante. Renegando todo o resto.

O “voo”

julho 3rd, 2011 § Deixe um comentário

Estava eu lá, na parte mais alta daquela montanha. Quem sou eu? Um ser flagelado pelo tempo, com muitas cicatrizes visíveis, mas, as piores mesmo, essas estavam tão profundamente cravadas em meu âmago que até mesmo eu fazia questão de não vê-las, já tinham causado dor demais nesse ser quebradiço para serem relembradas. Que montanha era? Talvez não importe ou talvez eu não soubesse.

O voo, esse sim importa, esse voo um tanto inusitado e com certeza diferente de todos os outros. E crucial também, eram os paraquedas, que naquele momento protagonizavam a cena de minha própria vida, roubando de mim tal papel.

Estavam lá, em embate, os paraquedas, um deles colorido e despreocupado, o outro, era negro e inspirava quase imperceptivelmente toda a treva que realmente trazia contigo, se atinha em escondê-la, com todas as suas agraciadas, mas eu que estava tão perto e observava com atenção há um tempo, começava a notar com certo agouro sua face sombria.

Esse embate, já nem sabia eu como se dava. Os dois paraquedas disputavam, mas não diretamente entre si. Eles disputavam algo, queriam para si. Queriam envolver e possuir tal. Mas não era um algo qualquer. Esse algo era eu.

O paraquedas negro envolvia-me, eu sentia seu toque gélido, maléfico, que não obstante, era prazeroso. O paraquedas me envolvia com destreza e se atinha em fingir que não o fazia. Era como se quisesse-me, mas sem que eu notasse sua existência. Porém, notei aos poucos sua presença.

Enquanto eu sentia o cárcere daquela treva, olhava para o outro paraquedas. Esse, estava repousando lá, como em aguardo. E eu o desejava, com toda a força que ainda me restava, com toda a força, que depois do que já vivi, a ideia do voo conseguira trazer-me. Eu tentava agora desvencilhar-me do que me prendia, me rebatia, mas tentava poupar energia, pensava muito, pensava em como sair dali. E continuava a mirar o paraquedas colorido, desejando-o.

Ainda que eu tentasse esconder, fingir que isso não ocorria, eu sabia no mais profundo de mim, que só não conseguira soltar-me ainda, pois não queria aquilo por inteiro, não utilizava realmente toda minha força, eu só me autoenganava quando mantinha em mente que o fazia.

De modo estranho, havia a já mencionado face prazerosa do gélido toque.

[...]

Subjugando o intragável

maio 15th, 2011 § Deixe um comentário

Giram. E seus pensamentos divagam do mesmo modo que as rodas, essas, que são empurradas pelas calejadas mãos. Calejadas por tanta vida, por tanta história.

As estagnadas velhas pernas, que tantas emoções sustentaram, hoje se contentam em contemplar seu circular e cru sucessor.

A beleza da vida se intensificou a seu ver, pois a mesma desgraça que lhe moldou, foi que presenteou-lhe com o mais belo presente, os olhos do coração, de sensibilidade.

Enquanto seus pulmões cansados reclamam, seu semblante sorri, com aquele árduo fazer, que lhe faz sentir o viver.

Deslizando, sente-se explorando o eterno somar, que a existência vem lhe apresentar.

Estela Janine
07 de maio de 2011

Minha taciturna

março 7th, 2011 § Deixe um comentário

Só o que vejo
por estes caminhos tortuosos
são teus passos vacilantes
a hesitarem nosso encontro.
Teu olhar sobre meu olhar
aviva minha alma.
Mas vejo em tua face
um ar sombrio que preocupa-me
e tu pareces temer
não sei se a mim ou a ti mesma.

Estela Janine

Entardecer

novembro 8th, 2010 § 2 Comentários

O ronco do motor marcava o fim do dia. E o sapato velho escorregava sobre o úmido asfalto, onde a chuva recém cessara. O lixo corria com os últimos resquícios de água pelo irregular declive da deserta rua.
Havia apenas uma pessoa caminhando por ali, talvez porque o toque de recolher recém tocara, cedo, como se fez costume desde aquele sombrio dia…
Passos lentos, determinados, talvez calculistas. O semblante se escondia sob a negra touca, parecia esconder-se além do frio, a respiração rápida, fatigada, parecia ansiar algo de doentio modo.
De repente, correu, e parou subitamente em frente ao velho portão de madeiras quebradas. Pôs a mão na fechadura, nervosamente, a delineou com os dedos. Num golpe rápido e tirou a chave do bolso, abriu o portão e sem o fechar correu quintal adentro.
Com a mesma agilidade de antes abriu a porta e subiu a escada, pulando dois degraus de uma só vez. Correu obstinadamente e escancarou a próxima porta. Deparou-se então com o que procurava ali. Avistou o espelho. Arrancou a touca e admirou o reflexo. Organizou o cabelo. Tomou nas mãos a gasta escova, e os dentes escovou.
Ouviu a mais doce música, o mais belo som, era a voz da pessoa amada, que lhe gritava o nome. Os músculos maxilares moveram-se instantânea e involuntariamente com o som captado, nascia um sorriso. E a voz saiu embargada, gritando:
– Suba meu amor!

Estela Janine

Monotonia

novembro 8th, 2010 § Deixe um comentário

As folhas são viradas hora silenciosamente, hora provocando secos ruídos. E seu conteúdo é sempre igual, coisas mudam, mas nada que realmente lhe importe. As letras embaralham-se sem nada dizer. Frases e frases que se inutiliza.
E ao lado, a caneta risca o papel num movimento preguiçoso, e mais além outros riscos surgem raivosa ou empolgadamente.
Os passos são sempre os mesmos, ainda que mudem a intensidade ou direção, permanecem vazios. Os caminhos são desconexos e sem destino.
E o estresse ainda paira, retornando a cada momento em que a tranquilidade e a alegria destraem-se.
O olhar fixo, que nada vê.

Monotonia

Folhas viram.
Dias passam.
Nada acontece.

Vê, respira.
Lê, sobrevive.
Já não há vida.

Escreve, diz.
Anda, desanda.
E pensa, que pensa.

Estela Janine

Um cigarro e um velho

outubro 24th, 2010 § Deixe um comentário

Andava apressadamente, pelas sujas ruas da cidade. Naquela tenebrosa e fria madrugada, seu único desejo era chegar logo à sua casa.
Olhando para o chão, distraída em desviar das poças que a chuva havia causado, não percebeu que alguém se aproximava. Esbarrou em uma pessoa que vinha em direção oposta. Viu cair ao chão um cigarro, recém acesso.
Apenas seguiu seu caminho sem olhar o rosto do outro (a) e nem se desculpou. Logo, sentiu remorso por sua falta de educação e olhou para traz, pôde perceber que era um rapaz, mas ele já retornará seu caminho. Suspirou e continuou andando, porém, mais lentamente.
O rapaz achou aquela cena estranha e curiosa, então olhou para traz, mas a garota ruiva afastava-se.
Ainda sentindo-se mal por nada ter dito, mantém sua caminhada, até chegar à esquina em que viraria, neste momento olha novamente na direção em que viera e percebe que o rapaz vira também, no mesmo instante em que ela.
Os olhares de ambos se encontram e os sorrisos chegam aos jovens lábios involuntariamente.
A garota fica estática, contemplando-o, como se algo a mantivesse ali, impedindo-a de continuar seu trajeto.
Era tão surreal, que ele não conseguia ignorar, esquecera-se de seu estresse. O cabelo vermelho estava molhado e lhe descia colado ao rosto, lhe proporcionando uma aparência frágil e casual.
Sem perceber, começaram juntos, a caminhar em direção ao outro, lentamente.
Chegaram a centímetros de distância e como se fossem um o espelho do outro, levantaram a mão oposta exatamente no mesmo momento. Os dedos entrelaçaram-se, ela sorriu.
Ele rapidamente leva a outra mão à cintura da garota e a puxa para si, alicerçando seu corpo, a tomba sobre o próprio braço e lhe dá uma beijo intenso.
Um velho, do outro lado da rua, assistiu toda a cena e sente que aquele não havia sido um simples beijo e que poderia render muita coisa ainda.

Estela Janine

A alma

outubro 2nd, 2010 § Deixe um comentário

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.”

Caio Fernando de Abreu

 

o inesplicável

apenas um lugar qualquer

Se era uma clareira, um campo ou um deserto, não importava. Dia ou noite, verão ou inverno, calor ou o mais ingrato dos frios, também não importava.

Naquele lugar supostamente comum, se postava um ar mágico. Tudo ali estava preenchido por uma beleza sobrenatural.

Nenhuma cor era muito intensa, postava-se sobre a paisagem tons frágeis, quase cinzentos. Mas nem isso era capaz de influenciar a energia daquele local e momento. Estar ali era como adentrar uma pintura.

As árvores doentes, as plantas secas, tudo que ali se encontrava aspirava horror, transparecia tristeza. “Mas nunca julgues o livro pela capa”.

Havia apenas uma única coisa que era especial, e sua intensidade suplantava qualquer mal que o lugar pudesse aparentar.

No canto mais longínquo e escondido, repleto de objetos naturais praticamente indefinidos, encontrava-se uma alma.

A alma estava iluminada, como se sua aura brilha-se, espelhando todo seu conteúdo. Transparecendo tudo que guardava intimamente, toda sua qualidade e potencialidade.

E eu sorri ao vê-la, sei que poucos iriam reconhecer, mas eu sentia, mas do que ninguém, o imensurável valor daquele aparentemente frágil ser.

Queria aproximar-me, abraçar-lhe, mas algo me impedia e ela pareceu-me distante. Então, pus-me a observar-lhe apenas, e contive-me com isso. Somente o fato de estar ali já era para mim algo muito bom.

Ritter.

Doces memórias sombrias

setembro 27th, 2010 § Deixe um comentário

O céu mostrava-se acinzentado, e parecia transparecer tristeza e conflitos, como se espelhassem mentes humanas. As nuvens moviam-se vagarosamente, pareciam mais lentas que o normal. Aquele clima sombrio era estranho até para o fim de tarde de janeiro que era. Mas tornava-se costumeiro pelo desenrolar da sociedade. Duas garotas apareceram caminhando vagarosamente sobre o campo sob aquele céu. Elas estavam juntas, mas andando distantes e indiferentes.

Observando com mais cautela os dois rostos lindos, envolvidos com um brilho estonteante apesar do refletir do céu acinzentado, eles mostravam ressentimento, que não conseguia ser contido inconscientemente enquanto as meninas que andavam paralelamente saiam do caminho marcado e iam direção a outra por algumas vezes consecutivas até tomarem rumos distintos, a de cabelo mais longo e escuro como o sentimento que guardava andou em direção à pedra mais próxima.

As garotas mantinham-se inconscientemente conectadas, por algo que nem supunham existir. A outro garota de cabelo curto e loiro, caminhou um passo até emparelhar-se com a árvore mais próxima e sentou-se nela se encostando. Manteve-se distraída por instantes, concentrada em seu íntimo, que trazia suas mazelas tristes, quase depressivas. Mas logo em seguida enxergou a outra garota, e focando-se plenamente nela, pela primeira vez, percebeu o quanto era bonita, enxergou nela uma beleza exótica, que não se retinha ao físico, é como se pudesse ver além disso, como se enxergasse parcialmente uma boa  áurea a envolvendo. Olhando a garota percebeu que apesar de sua expressão sombria – como o ar gélido que emanava pelo campo todo – ela possuía uma ternura incrustada em si.

Então do outro lado do campo, este por sua vez ocupado por flores de lótus arroxeadas, encontrava-se a moça de cabelos imaculados e negros que contrastava com sua roupa clara e informal, tão descontraída quanto seus pensamentos, Clara ao olhar através da clareira observou que a moça enigmática a olhava, ela fixou atentamente retribuindo o olhar de curiosidade e num suspiro subiu o rosto para admirar belas águias que ali passavam, mas Clara não estava de fato ali, ela viajava, viajava para um passado muito distante, de qual a moça que observava atenta e curiosa, não se lembrava.

A outra garota era menor, e também mais frágil. Ela continuava a observar a outra e toda a paisagem que a envolvia, observando que a visão parecia uma pintura, onde esta garota havia sido projetada para estar ali. Victória, não conseguia tirar os olhos da instigante figura. Mas esta, pareceu ter-lhe indiferença quando simplesmente olhou para ela e logo desviou o olhar para o céu, Victória sentiu isso como uma punhalada. Entristeceu-lhe a aparente indiferença que a garota tão interessante lhe empregava. Abaixou a cabeça e passou a observar os tímidos movimentos que as folhas faziam no chão conforme o vento as tocava, suave. Passou a imaginar por que a garota não interessou-se por ela como ela interessara-se pela garota, já que elas eram os únicos seres daquele misterioso lugar.

Clara imersa em seus pensamentos do passado não pode notar que Victória se ofendera ao desviar o olhar, ela observara o céu que havia mudado de tonalidade, passou do acinzentado sombrio para uma tonalidade mais clara, por fim as nuvens negras haviam sumido e o céu foi tomado por um azul límpido, o mesmo céu que ela avistará há alguns meses atrás, Clara voou dali, foi direto para exatamente 03 de junho do ano passado, nesse dia havia ocorrido um dos fatos que mudara o destino dela, não somente dela ,era notável que envolvia Victória, que envolvia também o fato do sentimento e do desconhecido da jovem Loira que entristecida preferia olhar a bela paisagem que se formava.

Victória estava aturdida, levantou a cabeça lentamente, contorcendo o corpo de um modo estranho. Direcionou o olhar para a outra garota novamente, observou-a, agora com uma abordagem diferente, tentou imaginar o que ela pensava, não teve idéias, mas isso lhe serviu para perceber que a garota estava realmente emersa em pensamentos, concentrada em algo. Neste momento ela percebeu algo que lhe fez sorrir, a garota não havia lhe desprezado, ela apenas estava alienada. Sua curiosidade e ansiedade eram grandes, ela não suportou. Levantou-se, tão suave e lentamente que não produziu sonoridade alguma, começou a caminhar em direção a Clara, suave como se flutuasse. Parou em frente a ela, observou-a ternamente, quanto mais olhava, menos real parecia, mas ao mesmo tempo, provocava-lhe sensação de deja vu, ela necessitava tocá-la para ver se era real. Esticou a mão devagar, até pará-la ao lado do rosto da garota, pousou sua mão no ar a poucos milímetros daquela pele clara e reluzente, como se tivesse medo de tocar.

Clara estava em um estágio menor de concentração, onde as imagens sobre o lugar e as cores se desbotavam e vinham em sua cabeça algumas vozes, vozes doces, porém vozes que traziam pedidos de ajuda, pedidos desesperados; então mesmo que o céu agora brilhasse e Clara pudesse sorrir com um dia tão belo, seus olhos foram dominados por algumas lágrimas que mesmo pesadas não ousaram a cair e mantiveram-se fixas nos olhos dando brilho refletindo seus pensamentos, e nesse momento ela observou mais atentamente o agora e não o passado, e percebeu que havia algo próximo, as lágrimas em seus olhos embaçava a imagem, mas ao virar assustada com a presença de alguém, suas lágrimas escorreram e Clara Pode ver com clareza que era Victória que estava ali, com a mão perto de seu rosto, com um olhar de curiosidade e com certo receio de tocar-lhe a face.

Tudo aconteceu muito rápido, Victória estava ainda pensando em tocá-la quando viu lágrimas surgirem em seus olhos e ela mexer-se, deixando as lágrimas cair. Comoveu-se e instintivamente passou o dedo pela face de Clara secando-lhe uma lágrima. Assustou-se ao perceber o que fez, percebeu o ato de impulsividade. Sentiu um turbilhão de emoções e pensamentos lhe invadirem. Sentiu medo de que a garota reagisse mal, a curiosidade por saber o que a fazia chorar, a vontade de ver um sorriso naquele rosto angelical, o desejo ardente de entender tudo que acontecia etc. E surpreendentemente viu toda a situação mudar, percebeu pela primeira vez o fato mais importante que existia no momento. Olhando fixamente no olhar da garota viu como um filme, milhares de flashes. Flashes de uma cena aterrorizante. Sentiu vontade de gritar e rapidamente levou a mão tapando a boca para se impedir. Não estava suportando lembrar de todo aquele caos, as pessoas mortas, pedindo por socorro de um modo eufórico, que não se encaixava com as suaves vozes. Tudo esclarecera-se naquele momento, lembrara do sangue escorrendo as ruas infectadas e sujas. Mas de todas as lembranças, havia uma especial. Foi em qual se focou, tentando deixar as outras de lado. Focou-se na imagem de Clara, agora lembrara seu nome, estava tão bela quanto hoje. Lembrou de Clara agonizando em uma calçada velha e ensangüentada, precária como tudo era naquele lugar, lembrou do quanto estava machucada e da euforia de sua mãe gritando para que salvassem sua filha, gritando seu nome loucamente. Não queria lembrar do que vinha a seguir, mas foi obrigada, sentiu-se como se estivesse retornado a cena, como se a estivessem puxando de novo e ela fazendo força para correr até Clara, mas não conseguia. Queria muito ajudá-la, mas não deixaram para que ela pudesse se salvar, e ela se viu impotente e depois daquele dia tentou esquecer tudo o que ali havia acontecido. Agora via Clara tão bem, exalando saúde e serenidade, explodiu em felicidade por finalmente saber o rumo da história que tanto tentara esquecer. Começou a derrubar desesperadas lágrimas de alegria, sentiu um grande ímpeto de abraçar Clara.

Clara sentiu o dedo de Victória secar sua lagrima que ousara cair, ela sorriu visando que a outra não sentisse que estava invadindo um espaço qual não poderia entrar, ela podia, mais que qualquer outra pessoa no mundo, Clara observando-a percebeu a bela Victória levar a mão ao rosto tampando seus lábios rosados e assustados momentaneamente, logo Clara percebeu que ela se lembrara daquele terrível dia 3, o dia em que Victória perdera sua memória e que agora sempre tinha flashes mas voltava a deixar a existência de todas as pessoas inclusive a memória de que foram as melhores companheiras que já existira, o dia que Clara perdera um de seus braços ao lutar bravamente contra a ditadura, ao lutar contra a opressão, então finalmente ao saber que aquele momento seria único e que não poderia haver outro em muito tempo, Clara abraçou fortemente Victória com seu braço bom , sentiu como se nunca tivesse acontecido nada, como se a história acabasse ali, se resumisse a Victória e sorrisos, logo algumas lágrimas finalizaram o momento que de cima inundava qualquer pessoa conscientemente bondosa, aquele abraço, o abraço mais apertado e mais carinhoso que existira em toda e qualquer história real.

Estela Janine & Fernanda Tamada

Em seu leito

setembro 24th, 2010 § 3 Comentários

Senti um imenso ímpeto de escrever sobre aquele momento. Mas o que escrever? Eu queria relatar o que estava sentindo. Porém, pareceu-me impossível descrever tal perfeição.

Visto isso decidi expor aqui, mesmo que superficialmente, o quanto aquele instante me foi importante.

Naquela imensidão a céu aberto, só o que existia era eu e ele.

Era intenso, inacreditável, parecia um filme e não a realidade, mas nós estávamos ali, concretos. Ele me completava, e ele parecia querer-me ali, em seu leito.

Ele acariciava-me, querendo me abraçar. Seu toque era suave como uma pluma. Ele estava frio, mas tudo que eu sentia com seu roçar era um calor carnal e relaxante.

Eu respirava com ele, acompanhando seu vai e vem.

Aquilo me preenchia, nada que não envolvesse aquele momento importava para mim, ali com ele eu nada mais queria a não ser permanecer daquele modo para sempre, indo no embalo dele, seguindo cada movimento.

Estava tão intenso que fiquei eufórica, comecei a ofegar.

Eu desejava com a alma, com a carne, com a mente e coração, que não acabasse. Era excitante demais para simplesmente parar, demasiadamente prazeroso para acabar.

Eu deveria estar cansada, mas estava cega e não via a banalidade e repetição do ato, pois para mim ainda era a melhor coisa do mundo, a qual eu queria poder vivenciar todos os dias.

Eu tive que partir, mas ele ficou lá, como sempre esteve e estará, com todo esplendor que só ele tem, o mar.

Estela Janine

Peruíbe – 19/09/2010

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