O “voo”

julho 3rd, 2011 § Deixe um comentário

Estava eu lá, na parte mais alta daquela montanha. Quem sou eu? Um ser flagelado pelo tempo, com muitas cicatrizes visíveis, mas, as piores mesmo, essas estavam tão profundamente cravadas em meu âmago que até mesmo eu fazia questão de não vê-las, já tinham causado dor demais nesse ser quebradiço para serem relembradas. Que montanha era? Talvez não importe ou talvez eu não soubesse.

O voo, esse sim importa, esse voo um tanto inusitado e com certeza diferente de todos os outros. E crucial também, eram os paraquedas, que naquele momento protagonizavam a cena de minha própria vida, roubando de mim tal papel.

Estavam lá, em embate, os paraquedas, um deles colorido e despreocupado, o outro, era negro e inspirava quase imperceptivelmente toda a treva que realmente trazia contigo, se atinha em escondê-la, com todas as suas agraciadas, mas eu que estava tão perto e observava com atenção há um tempo, começava a notar com certo agouro sua face sombria.

Esse embate, já nem sabia eu como se dava. Os dois paraquedas disputavam, mas não diretamente entre si. Eles disputavam algo, queriam para si. Queriam envolver e possuir tal. Mas não era um algo qualquer. Esse algo era eu.

O paraquedas negro envolvia-me, eu sentia seu toque gélido, maléfico, que não obstante, era prazeroso. O paraquedas me envolvia com destreza e se atinha em fingir que não o fazia. Era como se quisesse-me, mas sem que eu notasse sua existência. Porém, notei aos poucos sua presença.

Enquanto eu sentia o cárcere daquela treva, olhava para o outro paraquedas. Esse, estava repousando lá, como em aguardo. E eu o desejava, com toda a força que ainda me restava, com toda a força, que depois do que já vivi, a ideia do voo conseguira trazer-me. Eu tentava agora desvencilhar-me do que me prendia, me rebatia, mas tentava poupar energia, pensava muito, pensava em como sair dali. E continuava a mirar o paraquedas colorido, desejando-o.

Ainda que eu tentasse esconder, fingir que isso não ocorria, eu sabia no mais profundo de mim, que só não conseguira soltar-me ainda, pois não queria aquilo por inteiro, não utilizava realmente toda minha força, eu só me autoenganava quando mantinha em mente que o fazia.

De modo estranho, havia a já mencionado face prazerosa do gélido toque.

[...]

A esfera áurea

abril 21st, 2011 § Deixe um comentário

A esfera áurea

Contempando flutuantes cores;
Sentindo gloriosos sons;
Insanidades pairam,
alastram-se, transbordam,
e se fazem intragáveis.

Talvez os bípedes
com suas sanidades tilintantes
coexistissem sem noção do que os circundavam.
Mas os seres incomuns, a sua volta -
e comuns entre si -,
os observavam e atordoavam-se.

No fim, por insanos que são
desliguaram-se dos outros
e reconectaram-se
com o que não se vê, nem se toca
mas se sente, plenamente.

Estela Janine -
19 de abril de 2011

Palavras ao vento

janeiro 6th, 2011 § 2 Comentários

Nem sempre é desperdício
palavras ao vácuo.
As letras entrelaçam-se
formando mais tarde, textos, frases
e isso já se tornou um vício,
pois liberto livremente
tudo aquilo que não digo oralmente.
Nem o modo, nem o veículo,
nada disso me importa.
o que necessito é expressar-me.
Gritar em silêncio.
Expor minha mente,
minha misteriosa mente, mente peculiar.
Mas que mente não é peculiar?
Digito, rabisco,
sem medo, sem risco,
jogo aqui e lá, jogo ao ar
o que não consigo falar.

Estela Janine

Algo novo

dezembro 18th, 2010 § Deixe um comentário

Mudanças me envolvem a todo momento, e assim o quero. Mudanças, cercam-me e agradeço.
Não suporto vivenciar nada repetitivo, sequencial, rotineiro, regrado. Nada que se mantenha.
Sou instável e não gosto que tudo seja muito estável.
Li, num lugar que não vem ao caso a seguinte frase “Me descrever impossibilita-me de mudar”, sabe, eu concordo e discordo. Aqui neste blog, já escrevi muito sobre mim indiretamente, mas sempre mudo e isso não me impede de mudar o que escrevo.
Estou tomando novos rumos. Dando novos sentidos aos meus dias e a minha navegação à internet, logo, é correto que eu mude os ares do meu blog, e por que não expandí-lo? Passarei a postar aqui diversas coisas, de autoria minha ou não. Tentarei ser mais abrangente no quesito assunto, postar sobre uma diversidade bem maior de coisas. Com o intuito de tornar esse espaço mais interativo e menos banal.

Estela Janine

Irrefutável

novembro 24th, 2010 § 1 Comentário

Há quem diga que tudo acontece por um motivo. Há também os que preferem pensar que tudo é casualidade. Mas, algo é fato para mim neste momento, independentemente da circunstância que o sucedeu, o que está feito não é para ter volta.
Absolutamente tudo depende do tempo, e por mais que tentemos ignorá-lo, como eu faço por vezes. Ele sempre está presente, concreto, constante, inalterável, irrefutável. Somos eternos dependentes dele, diretamente ou não.
Unir os atos a ação natural do tempo, provavelmente seja a melhor saída, pelo menos, é exatamente assim que penso agora. Culpa, censura, precipitação, são sentimentos que a nada levam. O mais sensato é mesmo, abraçar o tempo como um velho amigo, e caminhar com ele, para quem sabe encontrar um caminho.

Estela Janine

Verbalizar

novembro 18th, 2010 § Deixe um comentário

Sei que apenas sei que necessito escrever. O por que é sempre claro, esta não é a informação que busco. O quê, é a questão. Acho que eu só preciso verbalizar. Mas verbalizar o quê? Sentimentos? Acontecimentos? Sensações? Anseios? Dúvidas? Medos? Pretensões?
E verbalizar para quê? Organizar? Visualizar? Expor? Entender? Rever?
Encerro sem um fim dizendo apenas que nada disse.

Estela Janine

Inimigo íntimo

novembro 11th, 2010 § Deixe um comentário

Orgulho que fere.
Egoísmo que corrói.
Pensamento interrompido.
Futuro destruído.

O vasto é sucinto.
O tudo.
Não vejo, não possuo,
não sinto.

A lágrima cai.
Amor se esvai.
Bailando segue,
a terra morta.

………………………. Estela Janine

Eu sou

novembro 8th, 2010 § Deixe um comentário

Sou como o vento, que é ora leve, ora intenso, as vezes puro e outras poluído, talvez limpo, talvez carregado. Que constrói, destrói. Que é vida e é morte.

Estela Janine

Monotonia

novembro 8th, 2010 § Deixe um comentário

As folhas são viradas hora silenciosamente, hora provocando secos ruídos. E seu conteúdo é sempre igual, coisas mudam, mas nada que realmente lhe importe. As letras embaralham-se sem nada dizer. Frases e frases que se inutiliza.
E ao lado, a caneta risca o papel num movimento preguiçoso, e mais além outros riscos surgem raivosa ou empolgadamente.
Os passos são sempre os mesmos, ainda que mudem a intensidade ou direção, permanecem vazios. Os caminhos são desconexos e sem destino.
E o estresse ainda paira, retornando a cada momento em que a tranquilidade e a alegria destraem-se.
O olhar fixo, que nada vê.

Monotonia

Folhas viram.
Dias passam.
Nada acontece.

Vê, respira.
Lê, sobrevive.
Já não há vida.

Escreve, diz.
Anda, desanda.
E pensa, que pensa.

Estela Janine

A teia

novembro 1st, 2010 § Deixe um comentário

Sinto-me na tentativa de libertar-me de uma teia, mas cada vez que me solto de um fio, outros dois enroscam-me.
E esses fios têm as mais distintas origens. Há fios de tristeza, de confusão, enfim, de diversas emoções. Mas há também fios mais intensos e um tanto mais específicos, que me prendem, mais e mais. Fios de solidão, incompreensão, abandono, escassez de recíprocas etc.
Hora os fios aumentam, hora ocultam-se em suas próprias entranhas. E tudo vai se alterando, se modificando, fazendo assim o fio da confusão aumentar e me envolver com destreza.
Sempre que os fios ocultos voltam à tona, são mais intensos, pois sempre somam aos acontecimentos anteriores os atuais.
E assim segue num emaranhado isento de fim e simplicidade.

Estela Janine

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