Paradoxo Tecnológico

maio 2nd, 2012 § 1 Comentário

Os “jovens modernos¹” são bichinhos estranhos.

Em casa, “sem nada para fazer”, os “jovens modernos¹” passam horas em redes sociais e, atualmente, é claro, principalmente no aclamadíssimo facebook, a rede social da moda (e aproveite para ganhar muito mais dinheiro ainda, enquanto outra rede não lhe rouba o posto, criador – que até filme ganhou!).

Mas, o que buscam nas redes sociais?

Eu diria que, em maioria, ampliar seu ciclo social, isto é, romper as barreiras impostas pelo ciclo social físico, que é restrito e limitado, para buscar um ciclo social virtual ilimitado, com pouca ou nenhuma restrição.

Muitas pessoas que não conseguem estabelecer muitos vínculos sociais, acabam por buscar refúgio nas facilidades de contato que a internet proporciona. E, muitas vezes, conhecem pessoas com as quais consideram identificar-se muito, desse modo, dedicam grande parte de seu tempo a contatar essas pessoas, afastando-se de quem lhe está próximo.

 

Por outro lado, algumas dessas mesmas pessoas, que tanto querem socializar, agem de modo contrário quanto a outro “presente” da tecnologia.

Quantas das pessoas que vemos na rua ou nos transportes públicos estão utilizando fones de ouvido? E para que o fazem?

Ouso dizer que em alguns casos é para fugir dos que lhe cercam. Colocam o fone com alguma música que lhes agradem e se isolam sonoramente dos demais. Mas, penso que a intenção não é apenas se isolar sonoramente, que é uma tentativa de fazê-lo em vários sentidos, pois as pessoas estão ali, obrigadas a dividir um mesmo espaço, não têm afinidade alguma, nem se conhecem, então optam por apenas a companhia de si mesmo e da sua música.

 

Mas então, porque não fazer o mesmo em outras situações? Porque estar em casa é quase sempre sinônimo de não ter o que fazer?

Se podem por uma música para fugir de tudo e ficar consigo mesmo, porque não têm o prazer de estarem consigo mesmo, dentro de casa ou em qualquer outro lugar? Ou será que a companhia dos conhecidos distantes lhes é melhor do que a sua própria?

 

Nota:

¹ Aqui me refiro aos “jovens modernos” que são levados pela tecnologia e não os que dela se abstém ou praticamente o fazem, ou então, aqueles em cuja cultura essas práticas ainda não se tornaram presentes ou costumeiras.

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Estela Janine

 

Além da boneca e aquém da filha.

novembro 2nd, 2011 § Deixe um comentário

Descubro que meus 16 anos é uma idade mágica – não que, todas não sejam, mas me referido especificamente a uma coisa: -, pois é nela que – e observei isso em algumas outras pessoas, não só em mim -  se descobre que o mundo é muito maior do que o contido entre as quatro paredes do seu próprio quarto, não que essa já não fosse uma conclusão óbvia desde sempre, mas eu me refiro a muito mais que espaço físico, me refiro a abraços, sorrisos, lágrimas, gritos, histórias, enfim, vidas… É na adolescência – e para alguns, infelizmente, nunca na vida – que se vê muito além do sensorial imediato, por exemplo, quando nota-se que o que os pais gostam, dizem, cantam não é cafonisse, mas um conteúdo real e pulsante de toda uma época, sociedade, vivências. Se vê que as palavras vazias de uma ou outra roda de conversa nada valem ou então, tudo valem, ao passo que umas podem de nada servir, de nada acrescentar, outras, ainda que não pareçam, podem esconder em suas vísceras significados muito profundos, algumas palavras aparentemente soltas, se olhadas como um todo e não como partículas de poeira voando pelo ar, podem mostrar-lhe um mundo – ou vários – antes desconhecido, antes invisível.
É muito mais do que ler sobre história. É senti-la, é vivê-la em pensamento e sentimento. É quando a partir da informação, a mente viaja para diversas galáxias, fazendo pontes entre elas. Quando nota-se que no chão que se está pisando hoje, muitas outras histórias já pisaram, correram, produziram arte, choraram, falaram, calaram-se, sangraram, morreram etc. É um dos momentos da vida em que se percebe que não se está sozinho no mundo.
Conhecer e respeitar, é o que vale muito antes e muito mais que julgar, quando falando de qualquer coisa externa a você. Então, antes de querer que o mundo te conheça, conheça o mundo!

Estela Janine

 

Rubem Alves – Sobre a Ciência e a Sapiência

novembro 2nd, 2011 § Deixe um comentário

Muitas pessoas não gostam do que escrevo. Dizem que o que eu faço não é ciência, é literatura. É verdade. Faz tempo que me mudei da caixa de ferramentas para a caixa de brinquedos. O que me aborrece é que esses que não gostam do que escrevo pensam que somente a ciência tem dignidade acadêmica. Houve mesmo o caso de uma candidata a mestrado que teve seu projeto recusado por me citar demais e por propor um assunto que não era científico. Psicóloga e pedagoga, ela sabia por experiência própria do poder do olhar.

Há tantos olhares diferentes! Há olhar de desprezo, de admiração, de ternura, de ódio, de vergonha, de alegria… A mãe encosta o filhinho na parede e, a um metro de distância, lhe estende os braços e diz sorrindo: “Vem”. Encorajada pelo olhar, a criança, que ainda não sabe andar, dá seus primeiros passos. Há olhares que dão coragem. E há olhares que destroem. Por exemplo, aquele olhar terrível da professora que encara a criança de um certo jeito, sem nada dizer. Mas a criança entende o que o seu olhar está dizendo: “Como você é burra…”.

Há olhares que emburrecem. Voltando à metáfora do pênis, há olhares que o tornam impotente, tanto no sentido literal como no sentido metafórico. Acho que era isso que a Adélia Prado tinha em mente quando escreveu maliciosamente: “E o meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir”.

O olhar é real. É real porque produz efeitos reais. O olho é também real. Sobre ele, pode-se ter conhecimento científico. Há uma ciência dos olhos. Há uma especialidade médica que se dedica a eles: a oftalmologia. Mas, por mais que procuremos nos tratados de oftalmologia referências ao olhar, não encontraremos nada. O olhar não é objeto de conhecimento científico. Nem tudo o que é real pode ser pescado com as redes metodológicas da ciência. Há objetos que escapam pelos buracos de suas malhas.

Será possível fazer uma ciência dos olhares? Tratá-los estatisticamente? Não tem jeito. Aí a proposta de uma tese sobre o olhar foi rejeitada sob a justa alegação de que não era científica. E não era mesmo. Mas o fato é que os olhares são reais! O estudo dos olhos é tarefa da ciência. E por isso eu sou agradecido. Neste momento, estou usando óculos para escrever. Sem eles, eu só veria borrões. Mas eu me dedico ao olhar, para que meus olhos sejam sábios. O olhar é uma música que os olhos tocam. Coisa de poeta…

São os poetas que falam sobre os olhares. (Eu escrevi “São os poetas que sabem sobre os olhares”, mas logo corrigi. Todo mundo sabe sobre os olhares. Todo mundo observa atentamente os olhares, porque são eles, e não os globos oculares, que sinalizam a vida e, especialmente, o amor. Mas só os poetas sabem falar sobre eles.) Escrevo para mudar olhares. Isso não é ciência. É arte.

Há olhos perfeitos que são armas mortíferas. Jesus se referiu a esses olhos e sugeriu que deveriam ser arrancados. Os olhos, eles mesmos, são estúpidos. Eles não têm o poder para discriminar as coisas dignas de serem vistas das coisas não-dignas de serem vistas. Para eles, tanto faz ver um programa idiota de televisão ou uma tela de Johannes Vermeer. A capacidade de discriminar não pertence aos olhos. Pertence ao olhar. Mas isso exige uma luz interior.

Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto do mundo. Os pianos Steinway são produzidos de forma absolutamente rigorosa e científica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano, em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder de discriminação. Os pianos obedecem tanto ao toque de um macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas. São construídos para tornar possível a beleza da música.

Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico. Ninguém pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios científicos. E não me consta que algum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza, há os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre a ciência da construção dos pianos. O que eles sabem é tocar piano, coisa que não é científica… Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas. Os pianistas, na caixa de brinquedos.

A diferença está entre “ciência” e “sapiência”. Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia. Parodiando, eu digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas, se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas, é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro…

Rubem Alves

 

Fonte: http://www.obarcobebado.com/2009/08/rubem-alves-sobre-ciencia-e-sapiencia.html

Sumak Kawsay

outubro 30th, 2011 § Deixe um comentário

Hoje em dia, ganha cada vez mais espaço a proposta de bem viver dos povos indígenas andinos, conhecida como sumak kawsay. Sumak significa plenitude e kawsay viver. Não se trata de viver melhor ou viver cercado de conforto. Trata-se de viver em plenitude.

Plenitude implica fazer da felicidade um projeto comunitário, coletivo. É saber construir relações de solidariedade, não de competição; de harmonia, não de hostilidade; e estabelecer com a natureza vínculos de parceria cuidadosa.

Para a sociedade capitalista, a natureza é objeto de propriedade e temos o direito de explorá-la e até destruí-la em função de nossas ambições. O capitalismo se norteia pelo paradigma riqueza-pobreza, enquanto o sumak kawsay rompe esse dualismo para introduzir a de sociabilidade e de sustentabilidade, bases fundamentais de um projeto civilizatório. Fora disso, caminharemos para a barbárie.

Frei Betto

Fonte: http://marcosblog1.blogspot.com/2011/02/sumak-kawsay.html

Eu entitularia o trecho seguinte como “Robômorfismo”:

outubro 27th, 2011 § Deixe um comentário

Veja esta deliciosa confissão de presunção e arrogância por parte de James Clark Maxwell, em sua aula inaugural como professor de física teórica, em Cambridge:
“A história do desenvolvimento das idéias, não importa que seja normal ou anormal, é, de todos os assuntos, aquele em que nós, homens do pensamento, temos o mais profundo interesse. Mas quando a ação da mente sobrepassa o estágio intelectual, no qual a verdade e o erro são as únicas alternativas, e mergulha nos estágios mais violentamente emocionais de ira e paixão, malícia e inveja, fúria e loucura, o estudante de ciência, embora obrigado a reconhecer a influência poderosa destas forças selvagens sobre a humanidade, está, talvez, de certa forma, desqualificado para se dedicar ao estudo desta parte da natureza humana… Com alegria retornamos para a companhia daqueles homens ilustres que, por aspirar a fins nobres, tanto intelectuais quanto práticos, se elevaram acima da região das tempestades, numa atmosfera mais clara, onde não existe nenhuma representação equivocada de opinião nem ambigüidade de expressão, mas onde a mente entra em contato mais íntimo com a outra, no ponto em que ambas estão mais próximas da verdade”
(Citado, sem nenhuma intenção irônica, por Charles Coulston Gillispie. The
Edge of Objectivity, como prefácio e moto).

Este texto é um prato suculento para qualquer pessoa que deseje fazer uma análise da visão de mundo e de si mesmos que fazem muitos cientistas.
Onde se localiza o cientista? Quem é que habita este mundo? O que caracteriza o uso da linguagem, nesta esfera?
E o outro mundo? Quem o habitará? Que tipo de fins devem ter as pessoas que nele vivem? Que forças o impulsionam? Que atitude deve ter o cientista para com ele?
Por que razão o cientista se sente desqualificado a estudar este mundo mais baixo? Sensibilidades nasais?
Que idéia o cientista faz de si mesmo? Homens ilustres, fins nobres, tanto intelectuais quanto práticos…
Você acha que esta é uma descrição objetiva do mundo da ciência? Existe desejo e emoção nestas palavras? Podem ser consideradas como expressões da verdade?

(Rubem Alves – Filosofia da Ciência. p. 122-123)

Desnível cotidiano

outubro 7th, 2011 § 1 Comentário

Já não faço muito do que costumava. Alterei minhas prioridades e agora sinto falta da minha arte, da natureza, sinto falta de respirar. Sou agora mais feliz, mais ingrata e menos expressiva e espontânea. Há aí um desequilíbrio que minh’alma precisa corrigir.

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